IA e futuro do trabalho: LinkedIn revela novas habilidades no SP2B

IA e futuro do trabalho: LinkedIn revela novas habilidades no SP2B

11/08/2026

Dados apresentados durante o evento mostram avanço acelerado da inteligência artificial no Brasil e apontam uma transformação que vai além da tecnologia: cargos, competências, lideranças e a própria organização do trabalho começam a mudar.

Por Gustavo Teixeira, direto do SP2B, em São Paulo

A discussão sobre inteligência artificial entrou em uma nova fase. Se nos últimos anos boa parte das conversas esteve concentrada no que as ferramentas de IA seriam capazes de fazer, agora a questão começa a ser outra: como empresas e profissionais precisam se reorganizar para trabalhar em um ambiente no qual humanos e inteligência artificial atuarão cada vez mais juntos?

Esse foi o ponto de partida da palestra “Liderança na Economia da Inovação: Habilidades para a Era da IA”, apresentada por Sankar Venkatraman, Global Ambassador do LinkedIn, durante o SP2B — São Paulo Beyond Business, em São Paulo.

Ao longo da apresentação, Sankar trouxe dados da plataforma sobre o mercado brasileiro e mostrou como a inteligência artificial já começa a transformar habilidades, tarefas, modelos de contratação e o próprio papel das lideranças.

E os números mostram que essa transformação já está acontecendo.

Brasil acelera a adoção da inteligência artificial

Um dos dados mais expressivos apresentados mostra o crescimento das competências relacionadas à IA entre profissionais brasileiros.

Segundo os dados exibidos pelo LinkedIn no SP2B, o número de membros no Brasil que declaram competências relacionadas à inteligência artificial em seus perfis cresceu aproximadamente 19 vezes desde 2022.

Algumas habilidades que praticamente não apareciam naquele ano passaram a fazer parte de milhares de perfis. Entre elas estão IA generativa, engenharia de prompts e agentes de IA.

Outro levantamento apresentado posiciona o Brasil com uma taxa relativamente alta de penetração de habilidades de IA, atrás de mercados como Índia, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Canadá e França, mas à frente de países como Espanha, Singapura, Israel, Itália e Holanda.

O dado traz um sinal importante para as empresas: a discussão sobre inteligência artificial já não está restrita aos departamentos de tecnologia.

Da curiosidade para a aplicação

Talvez um dos sinais mais interessantes esteja na mudança das conversas dos próprios brasileiros sobre inteligência artificial.

Os dados mostrados no evento indicam que os profissionais estão deixando de falar sobre IA apenas como novidade e passando a discutir como aplicá-la concretamente no trabalho.

Na comparação entre maio e julho de 2025 e o mesmo período de 2026, os dados mostram uma mudança clara: as conversas sobre inteligência artificial estão migrando da curiosidade sobre a tecnologia para aplicações concretas nos negócios e no trabalho.

Os maiores avanços apareceram em áreas como finanças, saúde e marketing digital. As conversas sobre IA aplicada a finanças cresceram 899%, enquanto saúde avançou 803% e marketing digital, 634%. Também ganharam espaço temas mais específicos, como agentes de IA, engenharia de prompts, educação e novas formas de busca.

A mensagem sintetizada na apresentação foi direta: a conversa brasileira sobre inteligência artificial está migrando do genérico para o aplicado.

Isso muda também a pergunta que as empresas precisam fazer. Já não é apenas “como podemos usar IA?”, mas “em quais processos ela pode efetivamente gerar produtividade, qualidade ou novas oportunidades?”

IA não transforma apenas cargos. Transforma tarefas.

Outra mudança apresentada pelo LinkedIn é a passagem de uma organização do trabalho baseada principalmente em cargos para outra cada vez mais baseada em habilidades e tarefas.

Nem toda atividade realizada por um profissional possui o mesmo potencial de automação.

Tarefas repetitivas, previsíveis e com menor necessidade de intervenção humana tendem a ser mais facilmente automatizadas. Já atividades que exigem contexto, colaboração, consenso, liderança e capacidade de lidar com situações imprevisíveis permanecem muito mais dependentes das pessoas.

Essa diferença ajuda a entender por que o debate sobre IA não deve ser reduzido simplesmente à substituição de empregos.

A transformação pode acontecer dentro do próprio cargo: algumas tarefas passam para as máquinas enquanto outras ganham importância.

De assistente a colega digital

A apresentação propôs três etapas para entender a evolução da relação entre profissionais e inteligência artificial.

Na primeira, que representa o momento atual, a IA atua principalmente como assistente do ser humano. Pessoas e máquinas aprendem umas com as outras, mas o profissional continua responsável por orientar, revisar e garantir a qualidade dos resultados.

Na segunda etapa, apontada como próxima, surgem equipes formadas por humanos e agentes de IA. As pessoas passam a conceituar, criar ideias e determinar quais tarefas serão delegadas às máquinas. A IA, por sua vez, amplia velocidade, escala e qualidade da execução.

A terceira etapa aprofunda essa transformação. Sistemas passam a realizar determinadas atividades de forma autônoma e a interagir com outras máquinas. O profissional assume cada vez mais a responsabilidade de definir quais atividades devem permanecer humanas e quais podem ser executadas por agentes.

Em outras palavras, além de executar tarefas, profissionais poderão passar a orquestrar o trabalho realizado por inteligências artificiais.

Quanto mais IA, mais importantes algumas habilidades humanas

Um dos pontos mais relevantes da apresentação é justamente o fato de que a expansão da inteligência artificial não elimina a importância das habilidades humanas.

Os dados apresentados mostram competências de IA crescendo em diferentes áreas profissionais, mas, paralelamente, aparecem habilidades como gestão de pessoas, comunicação, colaboração, relacionamento e gestão de stakeholders.

Para as lideranças do futuro, a apresentação destacou três características.

Fluency representa a capacidade de permanecer à frente das mudanças por meio de aprendizado contínuo e experimentação.

Agency significa assumir o protagonismo sobre a própria carreira, com autonomia e uma postura de autoempreendedorismo.

Creativity é a capacidade de transformar inovação e ideias em ação.

Os dados apresentados sobre executivos brasileiros reforçam essa combinação. Entre as competências consideradas importantes aparecem, de um lado, liderança, inteligência emocional, comunicação, gestão do tempo, autoconfiança, tomada de decisão, negociação e feedback construtivo.

Do outro, estão competências como IA para negócios, Microsoft Copilot, produtividade com IA, agentes de IA, engenharia de prompts, IA para gestão de projetos, IA para liderança e IA responsável.

O profissional do futuro, portanto, não parece ser simplesmente aquele que domina mais tecnologia. A tendência é de valorização de quem consegue combinar fluência tecnológica com capacidades profundamente humanas.

Empresas precisarão repensar como contratam

Essa transformação também pode alterar os processos de recrutamento e desenvolvimento de pessoas.

A visão apresentada no SP2B aponta para organizações cada vez mais orientadas por skills, ou competências, e menos exclusivamente por cargos e experiências anteriores.

Em um ambiente no qual as tecnologias mudam rapidamente, aquilo que alguém fez no passado pode se tornar menos determinante do que sua capacidade de aprender o próximo conjunto de habilidades.

A recomendação apresentada passa por três movimentos: redesenhar funções a partir das habilidades e tarefas realmente necessárias; contratar olhando competências e interesse pelo aprendizado contínuo; e transformar o desenvolvimento permanente em parte da cultura da empresa.

É uma mudança que não interessa apenas às áreas de Recursos Humanos. Ela afeta diretamente CEOs, gestores e a estratégia das organizações.

Brasil vive uma explosão de empreendedorismo ligado à IA

A transformação também aparece na criação de empresas.

Os dados apresentados mostram uma forte expansão dos negócios relacionados à inteligência artificial no país.

Em 2022, apenas 0,27% das novas páginas de empresas brasileiras criadas no LinkedIn eram de companhias relacionadas à IA. Em 2026, essa participação chegou a 6,8%.

Segundo a apresentação, isso representa um crescimento de aproximadamente 25 vezes em quatro anos.

Outro indicador acompanha esse movimento: o número de profissionais brasileiros utilizando o título de Founder em seus perfis cresceu 39% desde 2022.

A leitura apresentada pelo LinkedIn resume bem o fenômeno: o Brasil está construindo, e não apenas procurando empregos.

Confiança do trabalhador brasileiro chama atenção

Outro indicador apresentado ajuda a completar esse cenário.

O Workforce Confidence Index, levantamento do LinkedIn que acompanha a confiança dos profissionais, mostra o Brasil em trajetória de alta e em patamar superior ao de mercados como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Índia. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil aparece no nível mais alto entre os países comparados no gráfico apresentado durante o SP2B.

Há também uma percepção relativamente positiva dos brasileiros em relação à inteligência artificial.

Em outro levantamento mostrado durante a apresentação, aproximadamente 56% dos brasileiros concordam que produtos e serviços utilizando IA oferecem mais benefícios do que prejuízos.

O resultado coloca o país acima de diversas economias desenvolvidas em otimismo em relação à tecnologia.

O desafio agora é transformar curiosidade em capacidade

Talvez a principal conclusão da apresentação seja que a transformação provocada pela inteligência artificial será menos sobre aprender uma ferramenta específica e mais sobre desenvolver a capacidade de aprender continuamente.

Ferramentas mudarão. Modelos de IA mudarão. Algumas competências técnicas hoje valorizadas provavelmente darão lugar a outras.

A capacidade de aprender, experimentar, colaborar, interpretar contexto, liderar pessoas, criar e tomar decisões tende a permanecer.

Para empresas e profissionais catarinenses, a discussão traz uma provocação importante: a vantagem competitiva pode não estar simplesmente em adotar inteligência artificial antes dos concorrentes, mas em preparar pessoas e organizações para trabalhar melhor com ela.

“É uma mudança que começa na tecnologia, mas rapidamente chega à estratégia, à cultura, à gestão de pessoas e à liderança”, afirma Gustavo Teixeira, diretor de Marketing da NSC, que acompanha o SP2B em São Paulo.

E talvez esse seja um dos principais sinais apresentados no SP2B: o futuro do trabalho não será definido apenas pelo que a inteligência artificial será capaz de fazer, mas pelo que pessoas e empresas serão capazes de fazer com ela.