A era da IA física: como a inteligência artificial começa a transformar o mundo além das telas
12/08/2026Depois de ganhar espaço nos computadores, celulares e ferramentas utilizadas diariamente pelas empresas, a inteligência artificial começa uma nova etapa: sair das telas e ganhar o mundo físico.
Drones que realizam entregas, robôs capazes de operar sem conexão com a nuvem, fábricas simuladas digitalmente antes de serem construídas e máquinas que conseguem compreender o ambiente ao seu redor são alguns exemplos de uma transformação que já está acontecendo.
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O tema esteve no centro do painel “A era da IA física: como dispositivos inteligentes vão transformar o mundo para além das telas”, realizado nesta quarta-feira (12) no SP2B — São Paulo Beyond Business, em São Paulo.
Gustavo Teixeira, diretor de Marketing da NSC, acompanha o evento e traz para o Negócios SC os principais insights e movimentos que podem impactar empresas e o mercado catarinense.
O encontro reuniu Samuel Salomão, fundador da Speedbird Aero; Bruno Eisinger, fundador da Infinite Foundry; e Patrícia Florissi, diretora de tecnologia do CTO do Google Cloud. A mediação foi do jornalista de tecnologia de O Globo Bruno Romani.
Mais do que discutir um futuro distante, o painel apresentou aplicações que já estão sendo utilizadas por empresas e ajudam a entender a próxima fronteira da IA.
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A inteligência artificial começa a ganhar corpo
Grande parte da popularização recente da IA aconteceu dentro das telas. Agora, a combinação entre inteligência artificial, sensores, robótica e modelos capazes de compreender as leis do mundo físico abre uma nova fronteira.
Patrícia Florissi explicou que alguns dos avanços mais recentes atacam gargalos históricos da robótica. Um deles está na própria forma de treinar as máquinas: em vez de depender apenas de experiências realizadas no mundo real, ambientes simulados podem gerar horas de situações para que os robôs aprendam antes de agir fisicamente.
Outro avanço é a capacidade de compreender relações de causa e efeito.
“Antes de o robô chegar e abrir uma gaveta, ele pode simular internamente quais são os efeitos de puxar a gaveta e ajustar as suas ações antes de executar.”
Na prática, a máquina começa a deixar de simplesmente obedecer a uma sequência de comandos. Ela passa a interpretar o ambiente, planejar uma ação e considerar suas possíveis consequências.
Há ainda uma mudança importante na maneira como esses sistemas são construídos. Patrícia explicou que tarefas que antes dependiam de modelos separados para enxergar o ambiente, interpretar uma instrução e controlar os movimentos começam a ser integradas.
É a união de visão, linguagem e ação dentro de um mesmo sistema — um passo importante para que robôs consigam realizar tarefas mais complexas e se adaptar a situações diferentes.
“A evolução da tecnologia está levando a gente para robôs autônomos.”
Para os negócios, isso amplia muito o campo de aplicação da inteligência artificial.
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Drones mostram que esse futuro já começou
Um dos exemplos mais concretos veio da Speedbird Aero.
A empresa brasileira desenvolve drones certificados para transporte de produtos. Segundo Samuel Salomão, a tecnologia já está presente no Brasil e em operações internacionais.
“Já temos operações em 14 países fazendo logística.”
Em São Paulo, drones da empresa realizam operações de transporte para o iFood na região de Alphaville. Fora do Brasil, a tecnologia também vem sendo aplicada em portos e no transporte de materiais médicos, exames e itens laboratoriais.
Samuel destacou ainda projetos na Itália e em Portugal envolvendo transporte de órgãos entre hospitais.
Os exemplos ajudam a dimensionar a mudança: quando falamos de IA no mundo físico, não estamos falando apenas de robôs experimentais em laboratórios. Já existem aplicações resolvendo problemas concretos de logística, distância, tempo e eficiência.
E o próximo desafio será administrar a escala dessas operações.
“A tendência de você ter uma infinidade de drones voando nos céus nos próximos anos é grande. Humanamente é impossível gerenciar todos eles ao mesmo tempo, então a IA está sendo hoje treinada para isso.”
Ou seja, a inteligência artificial não estará apenas dentro do drone. Ela poderá ser responsável por coordenar todo um ecossistema de máquinas autônomas.
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Antes de mudar uma fábrica, será possível testar tudo digitalmente
Na indústria, outra aplicação chamou atenção: os gêmeos digitais.
A tecnologia permite criar uma representação virtual de uma fábrica, máquina ou processo e simular diferentes cenários antes de realizar mudanças no mundo real.
Bruno Eisinger contou que a Infinite Foundry utiliza tecnologias originalmente desenvolvidas para o universo dos games, combinadas com física e algoritmos, para construir esses ambientes.
Um dos projetos citados foi desenvolvido para a Embraer, permitindo simular processos relacionados à fábrica do eVTOL, aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical.
Com esse tipo de tecnologia, uma empresa pode testar diferentes layouts, volumes de produção, utilização de equipamentos e necessidades de investimento antes de modificar fisicamente uma operação.
O ganho não está apenas na tecnologia. Está na possibilidade de errar no ambiente virtual antes de gastar dinheiro no mundo real.
IA dentro da própria máquina
Outro avanço destacado por Patrícia foi a chamada IA embarcada.
Em vez de depender permanentemente de uma conexão com servidores na nuvem, parte da inteligência pode funcionar no próprio equipamento.
Isso é especialmente importante em drones, máquinas industriais, hospitais e outros ambientes nos quais perder a conexão pode interromper uma atividade crítica.
“Esses modelos podem ser pequenos e embarcados no robô, para que ele não seja tão vulnerável à latência ou mesmo quando perde a conectividade com a cloud.”
Um drone em voo, por exemplo, não pode simplesmente deixar de tomar decisões porque perdeu o sinal.
Para as empresas, isso significa que a IA começa a chegar a ambientes nos quais autonomia, velocidade e segurança são tão importantes quanto capacidade computacional.
Máquinas diferentes terão que aprender a trabalhar juntas
À medida que drones e diferentes tipos de robôs passam a dividir o mesmo ambiente, surge outro desafio: fazer essas máquinas conversarem entre si.
Samuel apresentou um exemplo bastante concreto. Um drone pode transportar uma caixa refrigerada até determinado ponto e depositá-la em uma estação. A partir dali, outro robô assume a carga e realiza autonomamente a última etapa até o destino.
São máquinas diferentes, potencialmente produzidas por empresas diferentes, que precisam compartilhar informações e executar partes de uma mesma tarefa.
A discussão sobre interoperabilidade pode parecer técnica, mas tem uma implicação empresarial importante: o futuro da automação dificilmente será construído por uma única tecnologia ou fornecedor.
O valor estará também na capacidade de diferentes máquinas e sistemas trabalharem de forma coordenada.
O que essa nova fase da IA significa para as empresas
A principal mensagem do painel talvez esteja justamente na mudança de perspectiva.
Nos últimos anos, muitas empresas começaram sua jornada de inteligência artificial pela geração de textos, imagens, análises e automação de tarefas administrativas.
A IA física amplia muito esse horizonte.
Ela pode chegar à fábrica, ao estoque, à logística, ao transporte, ao hospital, ao varejo e à infraestrutura das cidades.
Para Santa Catarina, um estado com forte presença da indústria, tecnologia, logística e diferentes cadeias produtivas, acompanhar essa evolução deixa de ser apenas uma discussão sobre tendências.
Pode significar novas formas de produzir, testar, transportar e operar.
Um insight para o mercado catarinense
Para Gustavo Teixeira, diretor de Marketing da NSC, o painel ajuda a ampliar a própria discussão sobre inteligência artificial dentro das empresas.
“Nos acostumamos a pensar em IA a partir daquilo que acontece nas telas, mas essa conversa mostrou que estamos entrando em uma etapa muito maior. Quando a inteligência artificial chega às máquinas, fábricas, drones e à logística, ela começa a transformar não apenas a comunicação ou a produtividade individual, mas a própria operação dos negócios. Para um estado industrial e inovador como Santa Catarina, é um movimento que empresários e lideranças precisam acompanhar de perto.”
Há também uma consequência importante para o mercado anunciante. Toda transformação tecnológica relevante acaba provocando transformação de comportamento. Novas formas de produzir, comprar, receber produtos e utilizar serviços criam novas expectativas nos consumidores — e essas expectativas também chegam às marcas.
Na visão de Teixeira, o principal aprendizado é não olhar para a inteligência artificial apenas como uma ferramenta de comunicação ou eficiência. Estamos começando a falar de uma tecnologia capaz de modificar produtos, serviços e modelos de negócio.
Para as empresas catarinenses, portanto, a pergunta começa a mudar. Em vez de apenas “como podemos usar IA?”, talvez seja mais importante começar a perguntar:
“O que passa a ser possível no nosso negócio quando a inteligência ganha o mundo físico?”